Postado
em 27 de janeiro de 2006,
sábado |
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Por que sou vegetariano?

E
antes de se erguer, chupou os dedos sujos
de sangue,
que lhe deixaram na boca um gosto amargo
de vida.
(Chico Bento em O
Quinze, de Rachel de Queiroz)
Gênese.
No início, tudo era carne. Arroz,
feijão, bife e batatas fritas. O
quaternário básico
da alimentação carioca
ditava o “Fora
vida saudável”
da suburbana família que precisava
de energia para trabalhar. Nada de verduras!
Os urbanóides – ou suburbanóides
– comiam carne, muita carne. Até
porque isto era um sinal de prosperidade
e fartura. Quando adolescente,
em tempos de esfaimada inflação,
lembro de ver em um telejornal duas irmãs,
também adolescentes, moradoras de
uma favela no Rio, dizerem que há
muitos meses não tinham carne em
casa. Fiquei me perguntando porquê
isso seria tão chocante se
não há necessidade do consumo
de carne para vivermos.
Aos
onze anos, resolvi ser vegetariano.
Totalmente desprovido de qualquer conhecimento
sobre Nutrição e – pior!
– do hábito de comer verduras
e legumes, achei que o Popeye era
o melhor exemplo de que folhas faziam bem.
Pedi a minha mãe que comprasse espinafre.
Troquei o bife com fritas pelo ovo com espinafre.
Não sei se pela falta de costume
ou pela má vontade de minha mãe
em preparar o novo prato, garanto, aquilo
não era apetitoso. Na sétima
série, quando você começa
a sair com turminhas e pipocando Bob’s
e McDonald’s
em todos os bairros do Rio, eu tinha pouca
motivação para não
comer carne. A “esquisitice”
passou logo.
Dez
anos depois, aos 21, nascia Aimée,
minha primeira filha. Antes que ela saísse
da dieta de leite materno, decidi me tornar
vegetariano e criar meus filhos do mesmo
jeito. Lembro bem de um almoço, na
casa da minha mãe, no final de julho
de 1993, quando olhei para um pedaço
de galinha e disse: “Essa
é a última vez que estou comendo
carne”.
Seguiram-se duas semanas durante as quais
perdi 15 quilos, tive febres
de mais de 40 graus e delírios que
me faziam ver coisas nas paredes como se
um filme estivesse sendo projetados nelas.
Tire a bebida de um alcoólatra, o
pó de um cocainômano e você
verá o mesmo. Não vacilei
um instante. Quinze dias depois, o corpo
começou a se acostumar à nova
dieta e tirar dela o necessário
para viver. Perguntavam se eu estava
doente, se estava com câncer, com
AIDS… Não. Estava
apenas me limpando.
Passados
treze anos, ainda encontro quem se surpreenda
com o fato de eu ser vegetariano. Mais ainda
quando sabe que “a
transformação”
não se deu ontem. Não admitem
que eu possa ser vegetariano tendo quase
90 quilos, “uns
brações desses”
e esteja sempre saudável
e cheio de energia. Eu até
poderia ser vegetariano, mas tinha que ser
magro, curvado, de pele embaçada,
sem energia e parecendo estar sempre com
aquele ar de quem está fazendo vestibular
para defunto. Puro preconceito. Na acepção
mais pura do termo. E depois, ninguém
se chama Sandro Fortunato impunemente.
De família italiana, adoro massas.
Conheço
vegetarianos que o são pelos motivos
mais variados: por quererem se livrar das
toxinas das carnes e levar uma vida mais
saudável, por convicção
religiosa, por algum motivo de saúde
que os impeçam de comer determinado
tipo de carne, porque foram criados assim
desde sempre… Eu sou por um único
motivo: por saber que não
preciso tirar vidas para manter a minha.
Só por isso.
As
pessoas minimamente civilizadas, isto é,
as que estão afastadas de uma vida
mais bruta e vivem de modo mais moderno,
utilizando-se das comodidades da chamada
“civilização”,
talvez nunca tenham se dado conta de que
aquelas peças embaladas em isopor
e plástico ou ainda em caixas com
belas fotos não passam de restos
mortais que só não
apodreceram tão rápido
quanto quaisquer outros porque estão
cheios de produtos que os mantém
“agradáveis
aos olhos”
por mais algum tempo.
A
foto que ilustra o texto foi feita
há poucos dias na Feira Central de
Campina Grande, Paraíba. Lá,
somente naquela barraca, matam cerca
de quinhentas aves por dia. Imagine
quanto não se mata, em um dia, em
toda cidade de São Paulo. É
um derramamento de sangue, inútil,
do qual eu não participo.
E duvido que a maioria das pessoas participasse
se houvesse a necessidade de fazer isso
ativa e não passivamente. Se você
tivesse que levar o animal vivo para casa,
matá-lo, tirar seu couro/penas, limpá-lo,
abri-lo, revirar suas entranhas, diariamente,
você comeria carne? Como faria isso
com um boi? Subiria as escadas com ele,
colocaria bem no meio da sua sala, pegaria
uma trava de carro e meteria na cabeça
dele, depois cortaria o pescoço,
suspenderia o corpo e deixaria o sangue
escorrer em um balde... Comprar aquele
pedacinho de borracha vermelha no supermercado
é bem melhor, não?
Sou
vegetariano porque isso é algo a
respeito do qual me tornei consciente.
Tornar-se consciente de algo está
além de entendimentos, aprendizados
ou estudos. Você, carnívoro,
pode achar um absurdo como eu passo horas
no banho, como não me tornei consciente
da necessidade de economizar água.
Você, carnívoro, pode se assombrar
como eu não separo o lixo e encho
sacos e mais sacos com material reciclável,
como eu não me tornei consciente
da necessidade de não sujar tanto
o planeta. Você, carnívoro,
pode ficar indignado ao ver alguém
jogando lixo pela janela do carro ou alguém
dando uma mamadeira cheia de refrigerante
para um bebê. Você se tornou
consciente dessas coisas, mesmo que não
tenham tentado ensiná-las a você.
E este é motivo pelo qual não
faço campanhas pró-vegetarianismo.
Acho uma idiotice querer convencer alguém
de algo que só ela mesma poderia
se convencer. Não adiantariam os
milhares de argumentos em defesa do vegetarianismo.
Se essa argumentação
fosse possível, médico
nenhum fumaria, beberia ou usaria as próprias
drogas que receita.
Por
outro lado, assombra-me o espanto das pessoas
ao saberem que sou vegetariano e como elas
se esforçam em me convencer dos “benefícios”
do contrário. Eu conheço os
dois lados, na prática, e sei bem
qual é o melhor para mim.
“Mas você
não gosta de um franguinho, de um
peixinho?”
Adoro. Por isso mesmo deixo
todos vivos. Se não gostasse, mataria.
Outra coisa que me surpreende são
as “brincadeiras”
do tipo “quer
um bifinho?”
ou “vai
uma carninha aí?”,
como se isso pudesse me ofender.
Acredito que uma pessoa que não goste
de determinado alimento se ofenda com uma
brincadeira desse tipo. “Vai
um jiló aí?”
– e ela sente engulhos, “Quer
um pepino?”
– e ela sente nojo. Não é
o caso. Pior mesmo só quando alguém
vem com o “argumento”:
“E por
acaso as folhas que você come
não têm vida?”
Claro que têm. E sempre emendo: “E
por que você não come
seu cachorro ou um parente quando
ele morre? Acho um tremendo desperdício
de carne isso”.
Acho desnecessário ter completado
o segundo grau ou mesmo ter um QI de três
dígitos para perceber as diferenças
entre os reinos Mineral, Vegetal e Animal.
Carne só existe no Animal. Se você
come galinha por que não come o seu
cachorro? Se come vaca, por que
não come a sua avó?
Na China, come-se cachorro. Em várias
tribos, na Ãfrica – quiçá
ainda no Brasil – comem-se os parentes.
Por que você não o faria? Pelo
mesmo motivo que as garotas da reportagem
achavam um absurdo não comerem carne
há meses: cultura.
Foi
ensinado a você que “isso
pode”,
“isso
não pode”.
Como costumo dizer – quando a paciência
me falta –, se tivessem lhe
dado merda para comer, desde pequeno, você
acharia maravilhoso. Pode apostar
nisso. Tudo é uma questão
de costume. Tudo é uma questão
de cultura.
Ainda sobre os Vegetais que – sim,
têm vida! – e são comidos
por nós, selvagens e esquisitos
vegetarianos, sempre costumo lembrar
que a relação que temos com
o alimento é diferente. Enquanto
o carnívoro diz “eu
até gostaria de não comer
carne, mas eu adoro uma costela, uma coxa”
e está satisfazendo um desejo;
o vegetariano está satisfazendo
uma necessidade básica.
Quem convive comigo já deve ter reparado
que não costumo deixar restos de
comida no prato. Tudo que havia nele se
sacrificou por mim, para manter minha vida,
e o mínimo que posso fazer para agradecer
é fazer valer tal sacrifício.
Não
desejo que ninguém se torne vegetariano.
Não faço campanha para isso.
E só escrevi a respeito porque resolvi
nunca mais entrar nesse papo chato de explicar
o porquê de ser vegetariano. A partir
de agora, andarei com um cartão com
o título deste texto impresso e,
logo abaixo, o endereço para encontrá-lo
na Internet. Se isso realmente interessar
à pessoa, que leia. Se não,
não me encha com isso também.
Aos
carnívoros que convivem comigo, podemos
continuar sentando juntos à mesa
sem que vocês ouçam uma palavra
sobre vegetarianismo. Os restos de meus
amiguinhos sacrificados, em seus pratos,
não me ofendem. Aos que me convidam
para refeições ou recepções
em suas casas e dizem “olha,
pra você tem isso e mais aquilo”,
meu reconhecimento e admiração.
Demonstram respeito, atenção,
preocupação e carinho. A estes
meus amigos carnívoros, um
brinde com suco de clorofila, afinal,
entre eles pode haver algum abstêmio.
Se não se importarem, no meu copo
vai cerveja mesmo.
E
bom apetite a todos.
Mais
fotos da pobre galinha? Veja aqui.
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Postado
em 26 de janeiro de 2006,
quinta |
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As loucas de Fellini e os outros eus
Em
algum final de semana de 1987, trancado
em um quarto para mais uma longa sessão
de filmes no aparelho de vídeo que
acabara de ganhar, conheci Federico
Fellini. Até então,
ele estava somente nas páginas das
revistas de cinema e era, para mim, um italiano
cultuado e que deveria ser visto por qualquer
um que se pretendesse cinéfilo.
Amarcord,
eu me lembro, foi meu primeiro Fellini.
Naquele tempo, eram poucas as
“fitas seladas”.
As cópias não eram originais
e só uma ou outra locadora se dava
ao capricho de escrever cinco linhas sobre
a história e informar diretor e principais
nomes do elenco. Mas havia os cartazes.
Aquele com o desenho de um navio e vários
personagens caricaturados trazendo ao alto
o nome do filme – uma palavra que
me parecia sem sentido – me chamava
atenção. Eu me lembro: Amarcord.
Finalmente
eu entendia que era possível projetar
o sonho de alguém para fora de sua
mente e mostrá-lo a outras pessoas.
E nestes mais de 110 anos de cinema, ninguém
fez isso melhor que Federico Fellini. Nem
toda a evolução dos efeitos
especiais dos dias de hoje, capazes de dar
vida a qualquer pensamento, conseguem o
milagre do grande mentiroso. O fantástico
nunca precisou de recursos adicionais em
Fellini. E nem tinha nele sua mais perfeita
representação. Era tão
somente sua projeção através
de uma película.
Desenho,
música, teatro… várias
artes convergindo para a sétima.
Uma obra mágica. A contribuição
genial e sensível de um artista completo,
de um mentiroso que fazia da vida o que
ele imaginava e não a rudeza limitada
pelas amarras da realidade.
Logo
depois eu veria o então recente Ginger
e Fred, estrelado por dois
de seus grandes amores; Giulietta
Masina e Marcello Mastroianni.
A mulher de sua vida e o homem que várias
vezes representou o próprio diretor
em seus filmes.
Nos
anos seguintes, aqui e ali nos encontraríamos
de novo, até que em 2003, assisti
o documentário Eu sou
um grande mentiroso, no gigantesco
Cine Brasília, junto a um público
de… seis ou sete pessoas! Não
é de se admirar. Em geral, os cultos
aos grandes gênios do cinema são
realizados no recesso dos cineclubes, das
pequenas mostras e para alguns poucos bichos-grilos
que se dispõem a ir a uma sala com
as chamadas “sessões
de arte”.
Foi
quando me senti menos culpado em relação
a Fellini. Até então, era
mesmo difícil conseguir um filme
seu aqui no Brasil. Naquele ano, dez anos
após sua morte, o mundo real começou
a se reaproximar do mundo de sonhos de Fellini.
Na Itália, a Fundação
Fellini, presidida por sua irmã,
Maddalena,e pelos cineastas
Ettore Scola e Woody
Allen, inaugura o Museu Fellini.
No Brasil, ganhamos a exposição
Circo Fellini, que passou por Rio,
São Paulo e Brasília.
Circo
Fellini, que tive a oportunidade de vivenciar
em julho de 2005, em Brasília, era
composta de seis ambientes. O visitante
era recebido por marionetes, que representavam
personagens dos filmes, em um jogo de luz
e sombra, e que levavam imediatamente ao
ambiente lúdico do cineasta. Em seguida,
passava-se a uma tenda com 23 cartazes de
seus filmes. Na tenda seguinte, 40 desenhos
feitos por Fellini acompanhados de 40 fotos
de bastidores, mostrando como a idéia
nascia no papel e tomava vida. Em outra
área, fotos das atrizes, atores,
roteiristas, diretores e outros colaboradores
de Fellini. No quinto ambiente, livros,
roteiros, quadrinhos e objetos pessoais.
Tudo isso, embalado pelas maravilhosas e
premiadas músicas que Nino Rotta
compôs para os filmes de Fellini.
Tudo
levava a uma sala de vídeo, na qual
foram exibidos vários filmes de Fellini,
alguns dos quais ainda não lançados
em DVD no Brasil, além de entrevistas
e documentários. Imagine visitar
essa exposição, todos os dias
durante duas semanas, para poder assistir
As noites de Cabíria,
La dolce vita, As tentações
do Dr. Antônio, 8 ½,
Julieta dos Espíritos, Toby
Dammit, Satyricon, I Clowns,
Roma, Amarcord, Casanova,
Ensaio de orquestra, A cidade
das mulheres, E la nave va,
Ginger e Fred...
Tive
a oportunidade de corrigir terríveis
falhas em minha educação,
principalmente em relação
a La dolce vita.
O cartaz mais conhecido deste filme é
uma dessas imagens que entraram para o inconsciente
coletivo. Parece ser de um filme que todo
mundo viu mesmo sem ter visto. Como alguns
versos de Drummond que todos repetem sem
jamais ter lido o poema inteiro. Gostaria
de falar sobre a beleza de Anita Ekberg
e a antológica cena na Fontana di
Trevi, mas serei obrigado a falar de seu
parceiro, Marcello Mastroianni, ou melhor,
de seu personagem, o jornalista Marcello
Rubini.
Jornalista
de um periódico de escândalos,
Marcello espera tornar-se, um dia, um escritor
sério. Nesse meio tempo, encontra-se
completamente imerso na dolce vita
romana, entre uma aventura sentimental com
uma aristocrata sempre em busca de novas
emoções (Anouk Aimée
como Maddalena), a tentativa de suicídio
de uma companheira que o sufoca com seu
ciúme (Yvonne Furneaux
como Emma) e um flerte sem maiores conseqüências
com uma célebre diva do cinema (Anita
Ekberg como Sylvia). Após
o contato com a família de Steiner,
um refinado intelectual, Marcello acreditar
ter encontrado um tipo de vida ideal.
Contar
mais que isso, seria estragar o filme para
quem ainda não o viu.
Apesar
de todas as diferenças, mantidas
as dimensões de cada história,
partilhei e me identifiquei profundamente
com a trajetória de Marcello.
A
busca da existência ideal, o encantamento
com o que há de mais ilusório,
o desconhecimento e a negação
de sua história pregressa... eu me
vi em cada momento de sua vida. E vi muitos
conhecidos no mesmo caminho. Só não
pretendo comungar com o final. As metáforas
de Fellini podem até ser poéticas,
mas com a conhecida delicatezza à
italiana. Nem eu, sempre acompanhado
de minha majestosa estupidez, seria capaz
de deixar passar o recado de Fellini a respeito
dessa doce vida.
Foi
o primeiro dos filmes que assisti durante
a mostra e, a partir dele, todos os dias,
religiosamente, fui àquela sala me
conhecer melhor. Tenho o privilégio
de dizer que Fellini foi meu psicanalista.
No dia seguinte, assistindo o episódio
As tentações do
Dr.Antonio, comecei a me perguntar
sobre minhas próprias alucinações,
meus parâmetros de moralidade, sobre
meus desejos irrealizados e que tipo de
monstros poderiam ter criado dentro de mim.
E se eu já achava Anita Ekberg umas
das mulheres mais lindas, sensuais e voluptuosas
de toda a História do Cinema, o que
dizer depois de vê-la do tamanho de
um prédio? Para mim, essa imagem
representa os leões não alimentados
com os quais convivo. Cada vez que me dou
conta de que em meu interior habita um desejo
desconhecido e reprimido, lembro daqueles
seios gigantes e ouço a música
se repetindo e fazendo pouco de mim: Bevete
più latte, il latte fa bene...
Em
8 ½, minha
terceira sessão consecutiva de psicanálise
felliniana, já estava convencido
de que nada sabia de mim mesmo e que deveria
ir até o final, até ouvir
A voz da Lua, para entender algo
sobre mim e sobre Fellini. Com 8 ½,
perdi qualquer temor que pudesse ter em
relação a escrever, algo que
faço profissionalmente há
quase vinte anos. Eu deveria escrever e
escrever e escrever com todos os medos e
todas as idéias e sem saber qual
seria o final ou onde aquilo poderia dar.
Dei-me conta de ser uma obra incompleta,
imperfeita e com necessidade de ser vivida.
Início, meio e fim, um texto com
sentido, boa pontuação...
nada mais importava. Somente quando já
não conseguia mais diferenciar se
estava escrevendo sobre algo que vivi ou
se estava inventando, passei a viver o momento
do próprio texto, a vida que há
nele, a história que surge e se modifica
a cada palavra.
Foi
ainda em 8 ½ e com confirmação
em seu filme seguinte, Julieta dos Espíritos,
que as personagens femininas começaram
a chamar ainda mais a minha atenção,
em especial, as vividos por Sandra Milo.
A voz, o sorriso e o olhar de Sandra Milo
são capazes de dispensar toda a lascívia
do seu rebolado. Milo sempre entra em cena
para mostrar a superioridade da mulher e
sua capacidade de fazer do homem um simples
joguete. Homem nenhum tem domínio
de seu próprio destino diante dela.
E em Julieta dos Espíritos,
estrelado por Giulietta Masina, esposa de
Fellini, fica patente que a vida do diretor
é o cinema. Não há
distinção entre realidade
e ficção. Não se sabe
onde acaba uma e começa outra. Fellini
se auto-analisa na frente dos espectadores.
Julieta é vivida por sua esposa,
que tem o mesmo nome. A personagem é
uma mulher que após descobrir a traição
do marido passa a viver uma vida liberta
dos fantasmas que a torturavam. Julieta
e uma figura recatada, simples, devotada
ao marido, totalmente diferente da personagem
de Sandra Milo. Uma é a nora sonhada
pela mãe italiana; a outra, a mulher
desejada pelo homem italiano. Seria assim
na vida real? Fellini, o marido, tentado
pelas belas mulheres do cinema? Ou seria
Fellini a própria Julieta, preso
em suas convicções morais
e louco para sentir-se livre? A sublimação
viria pela arte?
Mas
são as loucas de Fellini com quem
mais me identifico. Elas não são
lindas e nem estão dentro dos padrões
da mulher sensual. Elas vivem seus desejos
sem medida, sem moral, sem qualquer limite.
São vibrantes, espontâneas,
instintivas, anárquicas e, por tudo
isso, as mais próximas ao mundo real.
São as loucas de Fellini, a ponte
entre o real e o imaginário.
Em
seu desconhecimento de uma moral ou vivenciando
uma moral própria e única,
elas não se colocam para além
do Bem e do Mal. Elas estão sempre
à margem e, até por isso,
podem passar despercebidas pelo espectador
comum. Perceba os olhares de Volpina em
Amarcord e da flautista em Ensaio
de Orquestra. Perceba o que
dizem suas línguas quando não
falam nada, mas apenas saem da boca em busca
do que desejam. Perceba o que seus corpos
magros dizem. Perceba do que são
capazes.
As
loucas de Fellini superam seu alter ego,
Mastroianni. Elas sempre estão lá
dizendo “eu
sou assim! eu sou assim!”.
Da próxima vez em que você
assistir um filme do diretor italiano, preste
atenção na louca que estiver
nele. Talvez ela seja a chave para entender
a busca de Fellini pela verdade através
da mentira.
Originalmente
publicado no caderno Augusto,
do Jornal da Paraíba, em
22 de janeiro de 2006
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Postado
em 19 de janeiro de 2006,
quinta |
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O Grande Irmão zela por ti

Férias
servem para você apreciar coisas novas.
O Big Brother, por exemplo.
Não falo daquele desfile de peitos,
bundas, abdomens malhados e bíceps
que discutem abertamente quanto cobrarão
das revistas de nus para deixarem fotografar
o que todo mundo já viu. Falo do
verdadeiro Big Brother. O de George
Orwell, em 1984.
Mais
uma vez me arrasto na leitura por não
ter a mínima vontade de largar o
livro. A edição que estou
lendo é de 1976. Foi pinçada
da biblioteca de meus sogros, em Campina
Grande, onde, há quase dois meses,
cumpro exílio voluntário.
A
idéia do Big Brother, o da tevê,
como todos sabem, saiu do livro de Orwell.
E como devem ter lido por aí desde
a primeira versão do programa no
Brasil, em 2001, pouco tem do Grande Irmão
do livro além da linha principal
de vigilância constante.
No
entanto, vendo toda a manipulação
feita pela produção do programa
– a começar pela escolha dos
participantes descerebrados –, acredito
que existam mais semelhanças. Não
tive dúvidas quando cheguei à
leitura do seguinte diálogo:
-
Escuta. Quanto mais homens tiveste, mais
te quero. Compreendes?
- Perfeitamente.
- Odeio a pureza, odeio a virtude. Não
quero que exista virtude alguma, em parte
nenhuma. Quero que todos sejam corruptos
até os ossos.
- Então eu sirvo, querido. Sou
corrupta até os ossos.
- Gostas de fazer isto? Não me
refiro a mim, somente. Gosta da coisa
em si?
- Adoro!
É
a perfeita representação dos
animais enjaulados no programa. Esta sim
é a verdadeira Revolução
dos Bichos!
*
* *
O
Grande Irmão também zela por
mim.
Onde
quer que eu vá, sempre visito sebos.
Gosto das cidades pequenas e com certa idade.
Aqui e ali encontram-se coisas boas e baratas.
Aqui, encontrei dois livros de David
Nasser que ainda não possuía.
Um deles custou apenas 5 reais! E ainda
encontrei uma banca com algumas poucas edições
de O Cruzeiro e
de quebra uma de Manchete.
Comprei por 4 reais cada. Normalmente custariam
pelo menos 15 reais, vendidas assim “no
varejo”.
Mas
surpresa mesmo foi encontrar fotos-postais
de Natal, Recife, Rio e São Paulo
dos anos 50 nas fotos de Seu Farias e Dona
Terezinha, bisavós de meu filho Pietro.
Material de primeira para o Memória
Viva que, pelo quarto ano consecutivo,
está novamente entre os melhores
do país apontados pelo iBest.
Está no Top 10 nas categorias
Arte & Cultura (da qual foi
vencedor em 2005) e na Regional
RN.
E
a hora de votar é essa. Clique
aqui e dê seu voto.
É rápido, indolor e rápido
como a leitura deste parágrafo.
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Postado
em 2 de janeiro de 2006,
terça |
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O jardineiro aprendiz

Cada
vez mais, as comemorações
de final de ano fazem menos sentido para
mim. Para início de conversa, não
sou cristão e os ditos que vejo por
aí fazem tudo no Natal, menos celebrar
o nascimento de Jesus. Aliás, nunca
entendi porque se comemora o nascimento
de Jesus nessa época se a Bíblia
diz que Ele nasceu na Primavera e, até
onde eu saiba, em dezembro não é
Primavera em nenhum lugar do planeta. Quanto
ao réveillon, neste só
não estava dormindo como meus filhos
e minha esposa porque às 23h começou
a ser exibido, na tevê, um filme que
eu queria assistir. Festival de fogos? Poupe-me.
Só mesmo o da Zona Sul do Rio presta
e mesmo assim eu acho insano ficar olhando
para o alto em meio a todo aquele barulho.
Pela
manhã, eu fazia a mesma pergunta
que sempre faço no primeiro de janeiro:
qual livro seria o primeiro do ano? Queria
começar com algum livro budista,
mas nos últimos dias comprei três
sobre Nietzsche e meus dedos andam coçando
por eles. Mas o escolhido – ou imposto
por minha esposa – foi O veredicto,
de Kafka, o que me levou imediatamente à
pergunta “qual
será o segundo livro do ano?”,
já que esse é coisa para “uma
deitada de rede”.
Resolvi,
então, meditar. Mas de uma forma
diferente. Diferente para mim. Meditaria
enquanto limpava o jardim. A idéia
inicial era a de fazer uma limpeza interna
enquanto promovia a limpeza do jardim. Podar,
juntar folhas mortas, descobrir aquelas
que caíram em cantos esquecidos e
estão lá há meses ou
anos, aparar pontas que pudessem machucar,
deixar tudo limpo, em cores vivas e em harmonia.
Mas
a meditação atingiu outras
áreas não previamente imaginadas.
Primeiro foram as formas de vida que fui
encontrando. Pequenas aranhas, formigas,
marimbondos, minhocas… Será
que todos comemoraram o réveillon?
Pareciam tão ativos. Nenhum sinal
de ressaca. Todos tocando suas vidas, lenta
e rotineiramente. Imaginei o que representaria
aquele jardim para cada uma delas. Um bairro,
uma cidade, todo o mundo que conheciam.
Ou só mais um jardim para aqueles
marimbondos que podiam voar para onde quisessem.
Já
no final do trabalho, espetei o dedo em
uma planta, o que me valeu uma espécie
de alergia que deixou boa parte do meu antebraço
irritado e bastante inchado. E eu curti
isso. Curti o poder daquela plantinha e
a reação do meu organismo
contra seu veneno. Incrível como
algo aparentemente inofensivo pode causar
dor em uma criatura tão maior que
ela. E eu, como plantinha, o que posso causar
ao que me parece gigantesco? O que mais
aquela plantinha poderia me ensinar?
O
trabalho de jardinagem também me
fez perceber que o todo fica mais bonito
e harmonioso quando as pequenas coisas estão
em seu lugar. O jardim ficou mais claro,
mais vivo. Para isso, tudo que precisei
fazer foi tirar o que não era mais
necessário para ele. Apenas isso.
O jardineiro manteve seu emprego e eu ganhei
o dia.
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